quarta-feira, 12 de maio de 2010

o fim, por uma garota resolvida.

- Por favor, pode ir embora agora? To meia ocupada...
Estávamos parados no meio do pátio da faculdade, ele agarrando meu braço, os seguranças nos encarando prontos para pular no pescoço dele ao meu sinal, e eu com o coração na boca mais uma vez.
- Eu não teria vindo até a porta da sua faculdade se você tivesse atendido aos meus telefonemas, respondido meus e-mails e me desbloqueado do msn.
O fitei incrédula. Duas vozes gritavam na minha cabeça: a razão e a emoção.  A emoção gritava: Hei, ele veio, ele te procurou, talvez as coisas possam se resolver... deixa esse orgulho de lado, reparou que ele tá usando o moleton que você adora? Já a razão berrava: PQP, larga de ser burra. manda ele embora, resgata o pouco de dignidade que ainda lhe resta, sobe pra tua sala e vai estudar todas aquelas teorias de física que vc tanto abomina mas precisa aprender.
A bendita da razão falou bem mais alto. Tentei manter meu rosto calmo, e respondi que a voz mais fria que consegui.
- Eu só estava um tanto ocupada. Do mesmo jeito que estou agora. Olha, me desculpa, ta legal?! Mas por favor, preciso ir agora.
- Me responde, o que esta havendo? Não vou te soltar até ter uma resposta sincera afinal, mereço isso. Tivemos uma história!!!
- Não houve nada além do que você já sabe. Tem noção que as coisas não vão voltar a ser como antes, porque agora vc já tem o seu caminho e eu o meu. Ta insistindo porque?
- Eu não sei. Ando sentindo uma coisa estranha... você ta em cada lugar que eu olho... nunca senti isso antes sabe?! Preciso da sua ajuda.
O cara perdeu a razão. Se eu não estivesse atuando na peça: garota-muito-bem-resolvida-obrigada ,o teria abraçado ali mesmo. Achei melhor assumir o ar de "tanto faz, tanto fez" que eu vinha praticando na frente do espelho há dias.
- Deveria ter aparecido a algumas semanas, porque eu também senti isso. Então, deixe-me dizer como a coisa vai ser daqui pra frente: você vai chorar, sentir uma saudade que não cabe no peito, se culpar, se perguntar porque, perder o apetite, a vontade de sair com os amigos, se isolar, ME odiar, ME culpar, chorar de novo, vai pensar que nunca será capaz de sentir isso novamente, vai sentir inúmeras coisas desagradáveis, mas querido PASSA.  Da mesma forma  que passou pra mim, vai passar pra você. Com um pouco de sorte, você e eu vamos nos transformar em dois estranhos , e a nossa história vai ficar em preto e branco na página anterior. Não se sinta mal, nem me julgue. Eu não sou culpada, se nem você é, porque vou ser?! Anda, acredita em mim!  Ficou claro? Agora,  tenho uma aula de física pela frente. Fique bem! Mas não me ligue...
Virei as costas e sai, fazendo questão de pisar bem firme meus saltos no chão. Cada passo, um passo. Sem nem um pingo de vontade de olhar para trás.
Garota muito bem resolvida passando, com licença.


segunda-feira, 10 de maio de 2010


Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós. A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre. Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer. Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. 


Tati Bernardi
Eu invento amor, sim. E dói admitir isso. Mas é que não aguento mais não dar um rosto para a minha saudade. E não aguento mais os copos, as fumaças, os amigos, as intenções e as bolinhas de guardanapo pela metade. É tudo pela metade. Ao menos a minha fantasia é por inteiro. Enquanto dura.

Tati Bernardi

E eu corro no espelho de novo e repito cem vezes que não gosto de você, não gosto de você, não gosto de você. Porque se eu gostar de você, eu sei que você vai embora. E eu simplesmente não aguento mais ninguém indo embora. 
Tati Bernardi

domingo, 9 de maio de 2010

E voei, voei. Eu e minha loucura e minha vontade de vomitar tanto até secar por dentro. Eu e o meu medo de me magoar de novo com todo mundo e precisar de novo odiar tanto e me proteger tanto que fico demasiadamente má e me sinto má e começo a fazer maldades comigo. [...] E então, tudo continuava ali, prestes a dar muito errado, a falir, a cair no chão e fazer meu próprio buraco. Tudo estava ali. Todo o meu potencial gigantesco pra fazer da minha vida um inferno imenso. E eu assumi meu peso, eu assumi meu medos, eu assumi toda a merda. E assim, voei ainda mais alto, como se flutuasse. Eu peguei pra mim tudo o que soltava por aí e, surpreendentemente, fiquei mais leve.


Tati Bernardi sempre escrevendo  minha vida

domingo, 2 de maio de 2010

para amanhã.


To deixando tudo para amanha. Foda-se o que o ditado diz, vou fazer amanha e pronto.
Amanhã começo de novo, me jogo no desgaste de reiniciar uma coisa que já perdi as contas de quantas vezes comecei.
Depois de hoje me faço nova, amanha fico forte e pronta pra cair e ralar os joelhos outra vez. Mas agora, por hoje vou me sentar aqui e ficar quieta, sem ouvir nada e ninguém. Hoje vou parar de ser insistente e deixar os sonhos para depois. Porque essa coisa de sonho cansa né?! Você precisa batalhar todos os dias por ele, precisa dar o melhor de si, fazer por merecer. Não, não me entenda errado, eu não estou desistindo. Na verdade só adiando, da mesma forma que venho fazendo a tanto tempo.
Já fiz tanta coisa desnecessária, me refiz , voltei pro inicio, cai, chorei, me perdoei, gritei, me arrependi, me puni, senti culpa, já senti tanta vontade de ir embora, pegar uma estrada sem rumo nenhum, não ter destino, responsabilidades, cobranças, não ter nada,só a minha vida. Se eu fosse só um pouquinho mais corajosa,faria isso hoje. Mas não dá, porque amanha já é futuro. 
Amanha escrevo coisas bonitas que fale de esperança, tranquilidade, paz , e de amor verdadeiro. Porque claro, depois de hoje eu também vou voltar a acreditar nesse sentimento de dupla personalidade.
É só que hoje... hoje não ta rolando sabe?! Eu ainda quero falar sobre dor, sobre insegurança, saudade, me sentir estranha, tão fora do padrão, tão esquisita.Posso até me dar ao luxo de admitir que me sinto sozinha, mto complicada, como se todo mundo fosse ímpar e só eu fosse par. admito até que sou um bicho mto estranho e que ninguém vai entender o porque de tanto amargo na boca.  Me deixa colocar um pouquinho da alma pra fora, ela precisa respirar, a pobrezinha. E também, eu te juro, é só por hoje.
Até meia noite é dia. Porque você sabe, amanha volta tudo ao seu lugar. Como deve ser.
Voltarei a ouvir os problemas das pessoas e quebrar a cabeça pensando em uma forma de ajudar, voltar a dizer: "to bem assim, fulano! to mesmo me cuidando e claro, sou auto suficiente. não amo ninguém e nem quero amar.to até feliz, ta vendo esse sorriso não?!  até conformada estou com os kg que perdi, to achando que já ta bom assim, né?!"
Amanha é dia de ser gente. Levantar, andar e não parar. Gente deve sorrir, ficar feliz , amar, acreditar, essas coisas.
Eu to levantando, andando e não penso em parar.
Mas só amanhã ta?!

sábado, 1 de maio de 2010

ela e ela mesma.


Hoje ela acordou com uma vontade tremenda de ter outra vida. Estava cansada demais de todos aqueles conflitos pessoais, de toda aquela guerra com ela mesma, de tantos caras errados, do cara errado que ela teimava em achar certo. 
Mas ela não sabia o que fazer. Se sentia um tanto egoísta por reclamar da vida, afinal, tinha saúde, casa, amigos e algum dinheiro no banco. Só que aquilo não era tudo. A vontade de querer algo mais sempre existia, o gosto de novidade teimava em voltar para a boca.
Isso fazia parte dela, essa inconstância louca, o problema é que ela nunca se acostumou.  Sempre se achava inadequada, deslocada, no lugar errado e na hora errada.
Então, se toda essa sua loucura tivesse sentido, qual era o seu lugar? Onde é que ela poderia chamar de lar? Chegaria o dia que se sentiria livre, pronta para voar, disposta a viver sua própria vida, leve, sem culpa, sem medo, sem angustia?
Ela quis tanto tudo isso, queria tanto parar de viver de maneira pesada, afinal, tinha consciência que todos os seus problemas tinha uma só causa: ela mesma. Era ela quem tinha escolhido ser neurótica, difícil, azeda, ciumenta e tão complicada.
Não reconhecia que já era hora de parar, já havia se machucado demais e insistir em erros antigos já estava detonando seu coração, mente e corpo.
Hoje ela travou mais uma luta com ela mesma, estava frágil demais, tinha a alma pequenininha, encolhida e machucada. Ela havia se auto rotulado sua própria inimiga, e agi como tal: sempre traia suas decisões, nunca cumpria suas promessas,odiava oque via no espelho,causava dor a si mesma, e sempre, sempre ,sempre acabava chorando por sua própria culpa.
Lutava todos os dias, isso já era lei no mundo dela. Acordava e vestia sua armadura, que por ser tão pesada, tão fria, sempre acabava machucando-a. E quem disse que ela se importava? Antes machucada por dentro, do que se sentir exposta e vulnerável.
Ela não sabia como seria seu futuro, só oque sabia era que precisava mudar para ser feliz. Mas mudar oque, se nada nunca é suficiente? Terminar oque, se nada era bom o suficiente?
Por maior que fosse a dor, ela deveria continuar.
Por maior que fosse a queda, ela tinha que se jogar.
Era preciso, todo aquele mal era de extrema necessidade.
Um dia, a felicidade chegaria. E ela pararia de se machucar e simplesmente sorriria. Pura e simplesmente se aceitaria, deixaria para trás  toda forma de dor, e ousaria. Voaria!
Porque a vida não é pesada.
Ela entenderia que só precisa de si mesma para se completar e não haveria ser humano  no mundo capaz de ama-la como ela mesma.
Trocaria o azedo pelo doce.
O amargo pelo mel.
Começaria enfim, a viver.